sábado, 1 de maio de 2010

A Teoria Poliédrica da Verdade ou Como a Tolerância Epistemológica pode promover uma Tolerância Universal

Introdução:

Pretendo, neste pequeno ensaio, apresentar um insight que tive sobre epistemologia e filosofia geral. Esta idéia não é exatamente nova, mas a forma de apresentá-la e as conseqüências dela extraídas são inéditas e podem trazer alguma luz sobre assuntos tão complexos quanto a epistemologia, a ética e a teoria política.

A Idéia:

A idéia básica é muito simples: aquilo que chamamos (e que muitos filósofos e cientistas chamaram ao longo da história) de A Verdade com “V” maiúsculo, é algo que: ou não existe ou nós nunca teremos acesso a ela. Ou seja, por mais que se esforce o ser humano, por mais que a ciência e a tecnologia avancem, nós não podemos de forma alguma, conhecer o que chamamos de “A verdade absoluta”.
O que nos resta, então, é buscarmos nos aproximar, o máximo possível, desta suposta verdade com “V” maiúsculo por meio de verdades com “v” minúsculo, mais modestas e, possivelmente, mutáveis.
Podemos nos aproximar destas verdades? A resposta é sim. Há grande chance de que com a ciência e a crítica racional possamos nos aproximar delas, mas isto não basta: cada FATO do mundo é uma estrutura complexa. Não pode ser compreendido olhando apenas por um viés. Para cada FATO observado no mundo, podemos recorrer a um tipo de imagem de um POLIEDRO para representá-lo. Explico: cada FATO “é como se fosse” um grande POLIEDRO de muitas faces, e cada face “é como se fosse” um lado por onde é visto este FATO. Assim, cada FATO do mundo é uma destas verdades com “v” minúsculo e é como um POLIEDRO de muitas faces e cada FACE como uma visão de uma ciência especial, então é preciso ter em mente que:

1º - Ninguém conhece o POLIEDRO por completo. No máximo algumas FACES (ciências) e, na maioria das vezes, cada pessoa conhece uma única FACE.

2º - A conseqüência disto é que as pessoas possuem, inevitavelmente, um conhecimento limitado dos FATOS. Ninguém conhece o POLIEDRO por completo.

3º - Se ninguém conhece o POLIEDRO por completo, por mais genial que seja (é uma impossibilidade biológica) a atitude correta de cada indivíduo é ser TOLERANTE com a visão (também limitada) de outras pessoas. Se cada pessoa conhece uma FACE (ou algumas FACES no máximo) de uma verdade qualquer, isto significa que conhecer uma ciência (ou algumas ciências) é muito bom e útil, mas jamais é um atestado que permite que o indivíduo tenha qualquer tipo de atitude ARROGANTE.

4º - Por meio deste pensamento, concluímos que cada pessoa que conhece apenas uma FACE da verdade, deve respeitar e procurar escutar o que outra pessoa (conhecedora de outra FACE da verdade) tem a dizer, pois, só assim, o sujeito terá uma visão mais COMPLETA do “todo” verdadeiro.
5º - Por fim, cada pessoa conhecedora de uma FACE da verdade, deve reconhecer que não pode, sozinha, dar um parecer completo (ou mesmo semi-completo) de um POLIEDRO (FATO ou VERDADE). Ninguém pode, sozinho, ter uma visão minimamente decente sobre qualquer assunto em particular. Por isso que o incentivo aos chamados “grupos interdisciplinares de pesquisa” é de fundamental importância nos dias de hoje. Só eles podem dar uma visão mais realista de um FATO ou VERDADE qualquer.

Sobre a hierarquia das ciências:

Toda esta discussão sobre o conhecimento de cada um, nos faz pensar nas características de cada FACE do grande POLIEDRO que tornam cada ciência (FACE) individual diferente de todas as outras formas de conhecimento.
Quem é bom observador já deve ter percebido que a nossa discussão sobre epistemologia é fortemente influenciado pelo pragmatismo, corrente filosófica estruturada pelos filósofos americanos Charles Sanders Peirce, William James e John Dewey. Por isso, todas as nossas considerações procuram avaliar os resultados práticos de cada ciência e as conclusões que chegamos podem ser consideradas de suma importância.
Chegamos, por meio do pragmatismo, à conclusão que as diversas ciências e outras formas de conhecimento podem ser classificados segundo a sua CAPACIDADE DE PREVER NOVOS FENÔMENOS OU NA CAPACIDADE DE DESCREVER FENÔMENOS CONHECIDOS. Este é o nosso critério de cientificidade. Uma forma de conhecimento é mais científica se for capaz de prever ou descrever, com precisão, a ocorrência de novos fenômenos. Assim, podemos estabelecer uma hierarquia das diversas ciências segundo estes critérios.

Começamos com a matemática e a lógica como as mais científicas das ciências. Isto porque por serem ciências puramente formais, estas disciplinas não possuem nenhum contato com o mundo da experiência. Estão livres das contingências empíricas e, por isso, seus resultados são 100% precisos. Os teoremas são demonstrados com absoluta certeza: ou o teorema é verdadeiro ou é falso. Não existem meios-termos. Em compensação, a lógica e a matemática não tratam de fatos do mundo e, desta forma, tem pouca capacidade de resolver os nossos problemas mais importantes: aqueles que dizem respeito à vida prática. Claro que algumas construções matemáticas possuem a propriedade de ajudar a resolver alguns problemas empíricos. É a chamada Matemática Aplicada e uma das teorias mais úteis atualmente é a Teoria dos Jogos que possui a capacidade (limitada) de prever fenômenos nos campos da economia, dos conflitos bélicos e da política.

Vamos avaliar, agora, as chamadas ciências naturais, a saber, a física, a química, a biologia e suas muitas ramificações como a astrofísica, a bioquímica, a ecologia, etc. Estas são ciências com grande capacidade de prever fenômenos, por isso, tem alta cientificidade, segundo nossos critérios. Estas são ciências que se aproximam bastante da certeza matemática por meio de suas Leis, mas nunca chegando à certeza da Matemática.
Sua estrutura é complexa: a física, por exemplo, é formada por muitas teorias. Cada Teoria é uma coleção de Conjecturas e Leis estruturadas em um todo coerente tanto internamente (as Conjecturas e Leis concordam entre si), quanto externamente (as Conjecturas e Leis correspondem aos fatos do mundo). As ditas “Leis” possuem um grande status de certeza: uma lei é formada por um conjunto de observações reiteradas de fenômenos semelhantes construindo, assim, uma regra geral. Uma LEI científica é uma hipótese sim, mas é uma Hipótese Universal, uma hipótese tão bem corroborada que ninguém mais duvida de sua veracidade e precisão. Basta lembrar da Lei de Gravitação Universal de Isaac Newton, que diz que “matéria atrai matéria de forma diretamente proporcional ao produto das massas, e inversamente proporcional ao quadrado das distâncias”, ora, esta Lei não brotou do nada. Ela é o produto da observação de muitos físicos e observadores inteligentes. Começou com pessoas comuns observando a queda de objetos como pedras e gravetos. Aristóteles percebeu que estes objetos eram atraídos para a “Terra” sendo este, segundo o filósofo, o seu “lugar natural”. Galileu Galilei conseguiu mostrar que a regularidade de ver “coisas caindo” poderia ser bem mostrada por meio de uma fórmula matemática. Ou seja, as coisas caem sim, mas com uma observação bem definida.
Por fim, Newton percebeu que a “força” que atraía os objetos para o centro da Terra era a mesma que atraía os corpos celestes entre si, podendo chegar assim, a uma regra geral: uma LEI.
Já as conjecturas ou hipóteses representam a parte de menor certeza na física. Cada conjectura deve ser confrontada com um fato da natureza. Desta forma ou a conjectura é corroborada pela experiência de forma que ela fica mais confiável, ou é contrária à experiência tornando-a menos confiável. As conjecturas nunca são totalmente CERTAS ou totalmente ERRADAS. Existem infinitos graus de CERTEZA entre o 100% certo e o 100% errado, valores, estes, jamais atingidos. Assim, a física e outras ciências naturais são bastante confiáveis, mas não é possível ter certeza da VERDADE de suas afirmações como acontece com a matemática. No entanto, as ciências naturais têm algo a dizer sobre o mundo dos FATOS, coisa que não ocorre com a matemática.
É preciso deixar clara uma questão muito importante: a conjectura ou hipótese não é simplesmente colocada na condição de teoria por ter passado por um teste empírico. Não é porque a hipótese sobreviveu a uma experiência que ela pode ser considerada definitivamente “comprovada” como dizem os investigadores ingênuos da ciência. Ao passar por um teste empírico a hipótese está apenas “salva por enquanto” ou se a experiência não corresponde à conjectura não significa que a mesma está “totalmente descartada” como defenderiam os falsificacionistas popperianos. A hipótese fica apenas mais ou menos confiável. Assim, diante da Lei (mais segura que uma conjectura) da Gravitação Universal que diz que “matéria atrai matéria...” eu não posso me tornar um dogmático e dizer que a questão está resolvida. Esta Lei é apenas a expressão daquilo que se tem observado ou daquilo que nos é comum. Pode ser que, em algum lugar do universo, exista um tipo de matéria exótica que AFASTA outras porções de matéria fazendo inválida a Lei da “matéria atrai matéria...”
É preciso ser sempre honesto, comedido e tolerante quando tratamos de qualquer ciência experimental.

Devemos tratar da ciência mais importante, pragmaticamente, para entender os fatos impostos pela realidade: a Estatística.
É justamente a estatística a ciência que se encontra no ponto médio do nosso critério de cientificidade, afinal, ela trata de um assunto de grande importância para todas as ciências empíricas: a lógica indutiva. Não é difícil entender o que estou dizendo. A estatística é o estudo dos fatos do mundo em geral. Podem ser fatos ligados à física (quantas partículas subatômicas são detectadas em um acelerador como o LHC?), à biologia (quantas espécies de animais são observados em certa floresta?) e às ciências sociais (quantas pessoas entre 20 e 29 anos existem no Brasil?). É interessante notar que a estatística costuma ser dividida em duas partes: a estatística analítica ou matemática, e a estatística descritiva. Esta divisão é um símbolo da capacidade bipolar desta ciência, ou seja, enquanto a estatística está com um pé na abstração da matemática com a sua face analítica, o outro pé está firme na realidade da observação experimental, e é esta bipolaridade é a responsável pelas inúmeras aplicações desta fantástica área do conhecimento. A estatística faz uma ponte, pelas suas características, entre as ciências de maior poder preditivo (como a matemática e a física) e as ciências de menor poder preditivo (como a sociologia e a ciência política).
A estatística trabalha com dois conceitos de fundamental importância para qualquer pessoa (cientista ou não) que queira ter uma compreensão “sadia” da realidade: são os conceitos de MÉDIA e AMOSTRAGEM. Muitas pessoas, até inteligentes, se
perdem em raciocínios equivocados e argumentos sem uma base firmada pelo bom
senso, por não compreenderem as estatísticas. Saber interpretar uma estatística adequadamente é quase tão importante que saber ler e escrever nos dias de hoje. Senão vejamos: Se eu quero saber algumas características da população do Brasil, como o número de pessoas que recebem mais de 10 salários mínimos por mês ou o número de pessoas com doenças cardíacas, eu tenho dois caminhos: ou eu faço um censo (e fico conhecendo cada um dos membros da população brasileira) ou eu faço uma projeção por meio de uma amostragem representativa (caso em que eu não conheço toda a população brasileira, mas conheço uma parcela desta que me permite fazer inferências seguras). No caso do censo, os estatísticos têm em mãos os dados completos, pois cada um dos habitantes do país foi consultado. Assim, se eu quero saber quantos brasileiros ganham mais de 10 salários mínimos por mês, basta fazer uma CONTAGEM DIRETA que teremos o número EXATO. Tudo estaria matematicamente resolvido se fosse possível fazer um censo para cada problema ou pergunta que surgisse, mas isto não é possível. Os censos são caros, trabalhosos e demorados. Desta forma , se eu quero uma pesquisa para saber se os eleitores pretendem votar em um certo candidato, eu não posso recorrer a um censo, pois este demoraria tanto que as eleições já teriam sido realizadas. Ora, os estatísticos recorrem, então, a uma das mágicas desta ciência: a amostragem. Acontece assim: o Brasil tem uma população de 190 milhões de habitantes, se eu quero saber quantos habitantes irão votar no “candidato X” para presidente da república, basta eu escolher 2500 pessoas que representem a população brasileira (proporcionais quantidades de homens e mulheres, de nortistas e sulistas ou das classes rica, média e pobre, dentre outros parâmetros). Com esta AMOSTRA de 2500 pessoas eu terei uma parcela representativa da população brasileira e assim conseguirei um número tão confiável quanto o censo? Não. Com esta amostra teremos que manter uma margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos, da seguinte forma: se o “candidato X” tem 40% das intenções de voto nesta amostra de 2500 pessoas, basta eu colocar que os votos efetivamente conquistados estarão, MUITO PROVAVELMENTE, na faixa de 37% a 43% de toda a população brasileira. É aí que encontramos o que há de mais interessante na estatística: não temos um número CERTO, mas temos um número “QUASE” certo e bastante confiável.
Quando tratamos de graus de confiabilidade devemos pensar que a estatística, quando é utilizada pelas ciências biológicas, pelas ciências econômicas e pelas ciências sociais, busca uma “certeza” de, pelo menos, 95%. Ou seja, o objetivo é encontrar uma “certeza” prática, baseada no BOM SENSO, e não uma certeza lógico-matemática. O BOM SENSO e a LÓGICA INDUTIVA imperam na estatística e não a LÓGICA DEDUTIVA. Isto significa que o BOM SENSO fala mais alto que a mera possibilidade matemática. Um bom exemplo é a análise dos grandes centros de pesquisa do fenômeno conhecido como “aquecimento global”: estes grandes centros afirmam que tem mais de 95% de chance do aquecimento global ser causado pela atividade humana, ou seja, a indústria, a queima de combustíveis fósseis, a destruição das grandes florestas, a criação de gado, dentre outros fatores, seriam os responsáveis pelo aumento de gazes, como o dióxido de carbono e o metano na atmosfera, causadores diretos do “efeito estufa” responsável pelo aquecimento global. O interessante é que céticos e pessoas diretamente interessadas na manutenção das práticas poluidoras por motivos financeiros, se apegam à baixa probabilidade matemática de 5% para justificar a manutenção do nosso atual modus operandi. Se a lógica dedutiva nos diz que existe uma possibilidade matemática de que o aquecimento global tem causas naturais, o BOM SENSO nos diz para apostarmos todas as fichas nas causas antrópicas para o fenômeno.
Com relação às MÉDIAS trabalhadas pela estatística (ou mais especificamente pela Teoria das Probabilidades) temos, também, um bom exemplo de como a possibilidade matemática se contrapõe ao BOM SENSO da análise cuidadosa. Se jogarmos 1 dado de 6 faces para o alto, a possibilidade de sair cada uma das faces (com sua numeração tradicional: 1,2,3,4,5 e 6) é a mesma: 1/6. Eu posso apostar que sairá qualquer um dos seis números que eu estarei sendo sensato. No entanto, se eu jogo este mesmo dado 120 vezes a probabilidade de sair o número 4, por exemplo, continua sendo 1 sobre 6, o que corresponde a 20 lançamentos do total de 120. Ou seja, o provável é que saia 20 vezes o número 4, mas ninguém terá uma síncope caso saia o 4 em 15 lançamentos ou 25 lançamentos. Mas, qualquer um desconfiará deste dado se o número 4 sair 40 vezes nos 120 lançamentos possíveis. Isto é BOM SENSO, e é este bom senso que separa os loucos dos sensatos e afasta aquelas pessoas de intenções duvidosas que apelam sempre para as mínimas possibilidades matemáticas.

Ao falar agora das ciências humanas, eu entro no mais pantanoso dos terrenos. E isto por um motivo muito simples: o que temos de ciência positiva nestas áreas do conhecimento, temos em igual quantidade a IDEOLOGIA que não é científica e é campo fértil para brigas e ciúmes inúteis. Não quero diminuir o prestígio dos estudiosos destas disciplinas. Sei muito bem que o objeto de estudo das ciências humanas – o homem – é muito mais complexo que o objeto de estudo das ciências naturais. Meu objetivo é, então, alertar os profissionais das ciências humanas de que eles devem evitar, o máximo possível, as ideologias e se ater somente aos fatos. Aquilo que existe de mais palpável são os dados trabalhados com metodologia científica. Quanto às ideologias, eu mostrarei posteriormente como devemos analisá-las.
Primeiro vamos investigar o funcionamento das ciências sociais aplicadas como a economia, a assistência social, a psicologia e a administração de empresas. São ciências que recorrem à ajuda da matemática e isto é um bom sinal. Todas fazem uso da estatística o que permite colocar um pé na realidade. A economia recorre à Econometria, à Econofísica e à Teoria dos Jogos para tentar prever alguns resultados empíricos. Isto faz da economia a mais científica das ciências humanas, justamente por prever resultados importantes. No entanto, esta ciência, ou mais especificamente seus profissionais, são facilmente conquistados por alguma ideologia: liberalismo, neoliberalismo, keynesianismo, intervencionismo, etc. Nenhuma delas é assentada em uma ciência séria. Todas apresentam vantagens e desvantagens práticas e, normalmente, elas são defendidas por puro interesse de classe. Ou seja, temos que perguntar quem é favorecido e quem é prejudicado ao adotar uma certa ideologia.
Com a psicologia ocorre o mesmo: quando recorre às ciências biológicas, como a neurologia, a psicologia apresenta resultados práticos satisfatórios, mas quando apela aos dogmas das escolas de pensamento da psicologia como o behaviorismo, a gestalt, etc; acaba por não conseguir boas respostas para questões experimentais ou, o que é mais importante, resultados clínicos satisfatórios.

Por fim, devemos tratar das ciências sociais teóricas, como a sociologia e a ciência política, que são, sem sombra de dúvida, as menos científicas de todas. Isto porque estas ciências têm reduzido poder de prever fenômenos futuros. Elas tem a capacidade, pouco aproveitada, de DESCREVER os fatos, mas o nosso principal critério de cientificidade – a capacidade de PREVER novos fenômenos – é pouquíssimo executado.
Não é uma questão de pouco apreço às ciências sociais, mas, seguindo aquilo que o próprio Augusto Comte afirmou: que a sociologia deve ter como base as ciências mais fundamentais, pela ordem – biologia, química, física, astronomia e matemática – ou seja, se um sociólogo quer ser realmente rigoroso, ele deve conhecer biologia, química, física, astronomia e matemática. Por que isto? Porque um sociólogo que não conhece as Leis da biologia e da física pode afirmar coisas absurdas sobre a sociedade e sobre o ser humano que estão, afinal de contas, em um mundo FÍSICO. Um ser humano não pode sobreviver em um ambiente sem água potável e sem solo fértil, como bom ser vivo que é. Logo, não é possível a existência de uma sociedade com uma cultura que despreze estes dois fatores naturais. Uma cultura assim faria a sociedade desaparecer em pouco tempo. Não é de assustar que comunidades que infringem as regras naturais desapareçam em tão pouco tempo como aconteceu com os habitantes da Ilha de Páscoa.
Já conhecer matemática é de fundamental importância para todas as ciências e a sociologia está incluída neste rol. Talvez não seja possível criar fórmulas para prever fenômenos sociais, mas, certamente, o uso de estatística, Teoria das Probabilidades e Teoria das Decisões Racionais pode facilitar para a sociologia e a ciência política, a atividade de conhecer alguma coisa do futuro das ações humanas.
Mas, o que mais atrapalha a sociologia e a ciência política é o dogmatismo ideológico. Estes cientistas se deixam levar pela ideologia de uma forma mais fácil que outros pensadores: liberalismo econômico ou político, conservadorismo, marxismo, etc. É inacreditável como observamos brigas homéricas entre os setores direitistas e esquerdistas sendo que não temos “COMPROVAÇÃO CIENTÍFICA” da melhoria de vida das pessoas que vivem sob estes regimes em NENHUM dos casos. Todos ganhariam mais se todos os cientistas se limitassem apenas aos FATOS observados no plano experimental.

No final de nossa investigação sobre as ciências e seus diferentes graus de cientificidade, o leitor pode perguntar: “E a filosofia? O autor é filósofo e não vai tratar do grau de cientificidade da filosofia? Estaria ele fugindo do assunto?” Não. Eu não vou fugir desta questão. E começarei por esclarecer uma coisa muito importante: A FILOSOFIA NÃO É UMA CIÊNCIA. A FILOSOFIA É A ANÁLISE CRÍTICA DE TODOS OS ASSUNTOS. A prova disso é que existe filosofia da física, filosofia da biologia, filosofia da matemática, filosofia da arte, filosofia da mente, filosofia da engenharia, dentre tantas outras. A filosofia quer tomar o lugar destas disciplinas? É claro que não. Como já foi dito, a filosofia faz a crítica do assunto, ela não constrói o assunto. Claro que, por meio desta crítica, a filosofia pode ajudar (e já ajudou) as disciplinas especiais a produzir positivamente em parte do assunto em questão, graças à capacidade de clarificar conceitos que a disciplina de Sócrates possui. Ao “jogar luz” no esquema conceitual de cada disciplina, a filosofia mostra caminhos possíveis de serem seguidos pelos cientistas especialistas. Um bom exemplo pode ser dado pelas contribuições de John Locke e Montesquieu à política ou, mais especificamente, à construção da Democracia Representativa.
Ao dizer que a filosofia não é ciência, eu estou diminuindo a importância da mesma? Claro que não. A filosofia tem tanta importância quanto qualquer ciência. Não é sem motivo que ela continua viva e saudável mesmo depois de 2500 anos de existência. O trabalho crítico da filosofia é estruturador, clarificador e simplificador. É preciso lembrar sempre que, sem a filosofia, a própria história do pensamento ocidental seria diferente (e mais pobre): não teríamos a influência do platonismo na matemática e na física e, também, não teríamos a presença do empirismo aristotélico em todas as ciências experimentais, e para quem estuda a história das ciências sabe da importância destas linhas de pensamento.

A tolerância epistemológica gerando a tolerância geral:

Pois bem, o que aprendemos de mais importante até agora? Aprendemos que:

a) Ou não existe ou não temos acesso à Verdade com “V” maiúsculo.
b) As verdades com “v” minúsculo não são precisas nem definitivas.
c) Cada verdade com “v” minúsculo tem diversas FACES, como em um POLIEDRO, e cada face é vista por um tipo de cientista diferente: físicos enxergam apenas uma face do poliedro, os biólogos enxergam outra, economistas enxergam outra face deste mesmo poliedro e, no final, só é possível ter uma visão decente da verdade se unirmos o maior número possível de visões diferentes.
d) Existe uma hierarquia entre as ciências. Esta hierarquia está ligada ao grau de cientificidade de cada ciência. Este grau de cientificidade é determinado pela capacidade de prever novos fenômenos ou na capacidade de descrever os fatos do mundo.
e) Pela ordem são mais científicas a matemática, a física, a biologia e a estatística. E são menos científicas a economia, a história, a sociologia e a ciência política.
f) As ciências menos científicas estão impregnadas de ideologia. As disciplinas mais científicas, também têm a sua dose de ideologia, mas em menor grau que as menos científicas.
g) Independentemente do grau de cientificidade de uma disciplina, é preciso ficar claro que TODAS possuem suas incertezas: da própria matemática até a sociologia encontramos “pontos cegos” onde ninguém pode ter certeza da veracidade das inúmeras proposições que as diversas ciências nos apresentam. Tem perguntas nas matemáticas que não têm respostas, e mais ainda na sociologia.

Conclusão: Se não temos certezas absolutas de lado nenhum, então nos cabe ter uma boa dose de tolerância com as afirmações de todas as ciências? Não. Para cada ciência uma dose de tolerância diferente: Com as afirmações de um matemático devemos ter menos tolerância, pois a matemática nos permite fazer demonstrações bem fortes de seus teoremas. Sem falar que as bases desta ciência estão bem solidificadas há milhares de anos. Assim, identificamos na matemática, como muita facilidade, o que é genialidade e o que é insanidade.
O mesmo não ocorre com as ciências humanas: neste campo não é tão fácil afirmar o que é bom senso e o que é loucura. Desta forma, se qualquer sociólogo, antropólogo, lingüista, historiador ou cientista político fizer uma afirmação qualquer sobre a sua disciplina, devemos ter tolerância e tentar, na medida do possível, avaliar esta afirmação segundo as implicações práticas no mundo das experimentações, e ainda assim, é preciso deixar claro que não teremos respostas definitivas.
É a tolerância, então, uma virtude epistemológica tão importante quanto o rigor e a clareza. Devemos analisar, pormenorizadamente, o que é a tolerância. O mais famoso documento filosófico que trata da tolerância é a Carta Acerca da Tolerância de John Locke onde o filósofo trata, especificamente, da tolerância com os mais diversos credos religiosos. Ler um trecho do texto pode ser bastante ilustrativo:

“A tolerância para os defensores de opiniões opostas acerca de temas religiosos está tão de acordo com o Evangelho e com a razão que parece monstruoso que os homens sejam cegos diante de uma luz tão clara. Não condenarei aqui o orgulho e a ambição de uns, a paixão, a impiedade e o zelo descaridoso de outros. Estes defeitos não podem, talvez, ser erradicados dos assuntos humanos, embora sejam tais que ninguém gostaria que lhe fosse abertamente atribuídos; pois, quando alguém se encontra seduzido por eles, tenta arduamente despertar elogios ao disfarçá-los sob cores ilusórias. Mas que uns não podem camuflar sua perseguição e crueldade não cristãs com o pretexto de zelar pela comunidade e obediência às leis; e que outros, em nome da religião, não devem solicitar permissão para a sua imoralidade e impunidade de seus delitos; numa palavra, ninguém pode impor-se a si mesmo ou aos outros, quer como obediente súdito de seu príncipe, quer como sincero venerador de Deus: considero isso necessário sobretudo para distinguir entre as funções do governo civil e da religião, para demarcar as verdadeiras fronteiras entre a Igreja e a comunidade. Se isso não for feito, não se pode pôr um fim às controvérsias entre os que realmente têm, ou pretendem ter, um profundo interesse pela salvação as almas de um lado, e, por outro, pela segurança da comunidade.”

Para mim é evidente que tudo o que Locke disse sobre as diversas religiões, poderia ser repetido com relação às diversas ideologias e às diversas hipóteses científicas com grande dificuldade de comprovação empírica. Ou seja, a tolerância com as diversas ideologias que os seres humanos abraçam, deve ser a mesma que temos com relação às religiões professadas por cada fiel. Se o objetivo de uma religião é promover o bem da sociedade, o mesmo se pode dizer (com a óbvia exceção de pessoas mal intencionadas) das diversas ideologias. As pessoas em geral não querem (conscientemente) promover a destruição da civilização, nem construir o “inferno na Terra”. A maioria esmagadora das pessoas é bem intencionada. Da mesma forma os cientistas, de áreas menos capazes de se aproximar da CERTEZA, querem apenas mostrar como eles enxergam o mundo, e cada um enxerga do seu jeito aquilo que chamamos de “realidade”.


Como devemos lidar com as diversas ideologias?

Pois bem, chegamos à conclusão que a tolerância é uma virtude epistemológica tanto quanto é uma virtude humanística. Ela não é apenas uma grande qualidade MORAL que todos os seres humanos devem ter. É, também, uma qualidade que deve ser cultivada na investigação das diversas formas de conhecimento.
Mas, se já temos em mente que, tanto as ideologias quanto as hipóteses que não podem ser confirmadas pela experiência, não podem JAMAIS ter uma resposta definitiva para sabermos se são “verdadeiras” ou “falsas”, como devemos proceder para, pelo menos, escolhermos o melhor caminho?
Para mim, só existe uma resposta: devemos seguir o caminho do pragmatismo para escolhermos aquelas opções que trazem o maior benefício para a humanidade como um todo.
Assim, devemos pegar um exemplo paradigmático: o eterno duelo entre os defensores do capitalismo e os defensores do socialismo. Primeiramente, é preciso deixar claro que se tratam de dois sistemas político-econômicos que estão impregnados com ideologias: o capitalismo é baseado na ideologia do liberalismo econômico, enquanto o socialismo é baseado na ideologia do marxismo.
Então, baseado no nosso critério pragmatista de escolher o melhor para a humanidade (e não apenas o melhor para si próprio), com qual sistema devemos ficar?
É preciso dizer uma coisa antes de mais nada: no campo do pensamento, ALGUMA COISA DE BOM E VERDADEIRO EXISTE EM UMA IDEOLOGIA, UMA FILOSOFIA, UMA RELIGIÃO OU UMA HIPÓTESE QUE É DEFENDIDA POR MUITAS PESSOAS. É líquido e certo: um GRUPO GRANDE de pessoas nunca defenderia, conscientemente, uma ideologia, filosofia, religião ou hipótese que causasse prejuízo a este grupo. É preciso confiar na SABEDORIA dos grupos.
Desta forma, cristianismo, islamismo, espiritismo, budismo, taoísmo e muitas outras religiões, possuem alguma “coisa” que traz um benefício prático para os seus fiéis. Normalmente, este benefício é um código ético que une uma comunidade em torno de regras simples que visam evitar a violência de um contra o outro e que
promovem o respeito e a ajuda solidária e fraternal entre os membros de cada
religião. Claro que também temos, frequentemente, um lado ruim nas religiões e este lado ruim costuma ser o dogmatismo e a intolerância com as outras crenças e, não é segredo nenhum, que esta intolerância e este dogmatismo geraram guerras e matanças no decorrer da história da humanidade. Mas, estou convencido de que os males trazidos pelas religiões, são menores que os benefícios PRÁTICOS que elas apresentaram historicamente.
Da mesma forma, as diversas ideologias que tratam de economia e política possuem, sem dúvida alguma, um lado pragmaticamente bom e um lado pragmaticamente ruim. É claro que não é nada fácil localizar o que existe de bom ou de ruim nas ideologias. Como já foi dito antes, estes assuntos NÃO são científicos e, portanto, impossíveis de se testar experimentalmente. Mas, são passíveis de serem analisados pragmaticamente, e é isto que vamos fazer agora com o capitalismo e o socialismo em, pelo menos, alguns tópicos.
Os defensores do capitalismo dizem que o seu sistema é mais eficiente para gerar riquezas que o socialismo. Por riqueza eles entendem a produção de bens de consumo e de capital. Se olharmos a história e aquilo que chamamos de socialismo real que existia na URSS, de fato o capitalismo gerou mais bens de consumo que o socialismo. Mas, isto é bastante relativo por dois motivos:

1º - A indústria pesada na URSS produzia muito. O que a URSS não produzia em grandes quantidades eram os bens de consumo, ou seja, carros, geladeiras, fogões, televisores, rádios, computadores, etc. É por isso que os capitalistas costumam dizer que os soviéticos não tinham “riquezas” e os americanos tinham de sobra.

2º - O que os capitalistas chamam de “riqueza”, eu chamo de “consumismo” e “caminho sem volta para o colapso ambiental”. Se todas as pessoas do mundo consumissem como os americanos, precisaríamos de quatro planetas iguais a Terra para nos sustentar. Portanto, se os soviéticos “consumiam pouco” e não eram “ricos”, (algo parecido com as populações indígenas) hoje sabemos que eles eram mais racionais e responsáveis que os americanos, sob uma ótica ecológica científica. Ou seja, ou todos nós nos comportamos como os soviéticos e preservamos nossa espécie, ou nos comportamos como os americanos e, desde já, podemos marcar a data da nossa extinção como espécie.

Os defensores do capitalismo também exaltam a chamada “competição” entre empresas e pessoas com o objetivo de aumentar a produtividade e a qualidade do trabalho executado. De fato, quando analisamos as sociedades que mantém a competição pura entre os indivíduos e corporações, observamos um aumento de eficiência na produção, porque uma corporação que é desafiada por outra corporação a fazer o seu produto ou serviço melhor, acaba por ser obrigada a trabalhar mais e melhor para não perder a concorrência. E o resultado disso, dizem os capitalistas, é que toda a sociedade ganha com esta prática. Será mesmo verdade isto? Pode ser para a economia, mas não é, de forma alguma, para as outras ciências. A psiquiatria, a psicologia e a psicanálise constatam que a competição selvagem das sociedades capitalistas, geram grande quantidade de neuróticos. A grande pergunta é se a riqueza produzida pelo capitalismo compensa o sofrimento psíquico e a falta de paz que as pessoas são submetidas.
O que constatamos, então, com todo este discurso é aquilo que tínhamos falado no começo do nosso texto: para conhecermos um fato do mundo em toda a sua complexidade, nós não podemos recorrer apenas a uma ciência, é preciso perguntar para uma gama extensa de cientistas diferentes, cada um com sua visão única sobre o fenômeno observado. Só assim compreenderemos o objeto de estudo de forma global e mais próxima da tão perseguida VERDADE mesmo sendo esta com “v” minúsculo.


Conclusão:

A conclusão que chegamos é que a interdisciplinaridade não é um “papel de embrulho bonito” para apresentar os resultados de uma única ciência em especial. A interdisciplinaridade é uma NECESSIDADE, onde encontramos o único caminho para a solução de problemas realmente difíceis. Assuntos como, qual é o melhor sistema de governo, como acabar com a fome no mundo, como acabar com o desemprego e o que devemos fazer com os nossos criminosos; só podem ser resolvidos pela união de várias disciplinas. Só com a visão múltipla que permite a união de diversos cientistas de áreas diferentes com as suas diferentes visões sobre um mesmo objeto é que podemos ter a leve esperança de chegarmos à tão desejada VERDADE.
BIBLIOGRAFIA:

LOCKE, John . Carta Acerca da Tolerância (Coleção Os Pensadores), p. 15. Editora Abril: São Paulo, 1975.

HEMPEL, Carl G., Filosofia da Ciência Natural. Editora Zahar. São Paulo. 1974.

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