Vejam este longo trecho do livro História do Pensamento Econômico de Robert Heilbroner (pág.: 33-34):
“Mas o capital não é o único agente de produção que se debate freneticamente na tentativa de evitar os perigos do modo de vida do mercado. O que acontece com o trabalho é ainda mais desesperado.
Voltemos à Inglaterra.
Estamos em fins do século dezesseis, a grande era da expansão e aventura. A rainha Elizabeth fez uma viagem triunfal pelo reino e retorna com uma estranha queixa:
- Há mendigos por toda parte! – reclama.
Esta é uma observação surpreendente, pois apenas cem anos antes o interior da Inglaterra consistia em grande parte de proprietários camponeses que cultivavam suas próprias terras; tratava-se do pequeno proprietário, orgulho da Inglaterra, o maior grupo do mundo de cidadãos independentes, livres e prósperos. Agora, “Há mendigos por toda parte!” O que havia acontecido neste ínterim?
O que acontecera fora um enorme movimento de expropriação – ou, melhor, o início desse movimento que ainda começava a se desenvolver nesta época. A lã tornara-se uma mercadoria nova, lucrativa, e exigira que seu produtor tivesse amplas pastagens. Os pastos fazem parte das terras comuns; uma verdadeira e louca colcha de retalhos formada por pequenas e espalhadas propriedades (sem cerca e identificáveis apenas por uma árvore aqui, uma pedra ali, que funcionavam como limites entre as terras de um homem e de outro) e pelas terras comuns, nas quais o gado do pequeno proprietário se alimenta e nas quais ele colhe a trufa. Essas terras de repente são declaradas inteiramente como propriedades absolutas dos lordes e não mais disponíveis para uso dos camponeses. Onde antes havia uma espécie de propriedade comum, agora existe a propriedade privada. Onde antes havida pequenos proprietários rurais, agora há ovelhas. John Hales escreveu, em 1549: “...onde XL pessoas viviam, agora um só homem e seu pastor ocupam tudo...
Sim, as ovelhas são a causa de todos esses males, pois expulsaram a lavoura dos campos, que antes proporcionavam grande quantidade de alimentos de todo tipo, e agora só há ovelhas, ovelhas”.
É quase impossível imaginar o resultado e o impacto do processo de fechamento das terras. Mais ou menos em meados do século dezesseis começaram a explodir revoltas; em um desses levantes morreram 3500 pessoas. Em meados do século dezoito o processo ainda estava em plena efervescência; só em meados do século dezenove estaria completando seu terrível curso histórico. Assim, em 1820, cerca de cinqüenta anos depois da Revolução Americana, a duquesa de Sutherland removeu 15000 camponeses de 794000 acres de terra, substituindo-os por 131000 ovelhas, e como compensação arrendou um média de dois acres de terras marginais para cada uma das famílias desalojadas.
Mas não é apenas o confisco de terras em massa que merece atenção. A verdadeira tragédia aconteceu com o camponês. Despojado do direito de usar as terras comuns, ele não mais podia se manter como “fazendeiro”. Uma vez que não havia terras à venda, ele não podia – mesmo se quisesse – transformar-se em operário. Tornou-se, então, a mais miserável de todas as classes sociais, um proletário agrícola; onde não havia trabalho disponível em lavouras, ele acabou por se transformar em indigente, até mesmo em ladrão e comumente em mendigo.”
O final da história é previsível: as famílias aristocráticas ficaram com as terras que pertenciam aos pequenos agricultores. Com o surgimento da classe burguesa no período capitalista a maioria das terras mudou de mãos, passaram aos capitalistas que compravam as terras da decadente nobreza. E os agricultores pobres que viviam muito bem com suas pequenas terras nunca mais recuperaram o seu legítimo patrimônio! E assim temos hoje um verdadeiro exército de mendigos nas ruas. É por isso que a luta pela reforma agrária é apenas uma forma de compensação pelos prejuízos que os mais ricos causaram e causam aos mais pobres durante toda a história.
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